segunda-feira, 16 de outubro de 2017

De Tanto Ver, Banalizamos o Olhar



DE TANTO VER, A GENTE BANALIZA O OLHAR


"De tanto ver, a gente banaliza o olhar - vê...
não vendo. Experimente ver, pela primeira vez,
o que você vê todo dia, sem ver.
Parece fácil, mas não é: o que nos cerca, o que nos é familiar,
já não desperta curiosidade.

O campo visual  da nossa retina é como um vazio.
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta.
Se alguém lhe perguntar o que você vê no caminho,
você não sabe.
De tanto ver você banaliza o olhar.

Sei de um profissional que passou 32 anos a fio
pelo mesmo hall do prédio de seu escritório.
Lá estava sempre, pontualíssimo, o porteiro.
Dava-lhe bom dia e, às vezes,
lhe passava um recado ou uma correspondência.

Um dia o porteiro faleceu. 
Como era ele? Sua cara?
Sua voz? Como se vestia?
Não fazia a mínima ideia.
Em 32 anos não conseguiu vê-lo.

Para ser notado, o porteiro teve que morrer.
Se um dia, em seu lugar estivesse uma girafa
cumprindo o rito, pode ser, também, 
que ninguém desse 
por sua ausência.

O hábito suja os olhos e abaixa a voltagem.
Mas há sempre o que ver: gente, coisas, bichos.
E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que um adulto não vê.
Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo.

O poeta é capaz de ver pela primeira vez, 
o que, de tão visto, ninguém vê.

Há pai que raramente vê o próprio filho.

Marido que nunca viu a própria mulher.

Nossos olhos se gastam no dia a dia, opacos.

... É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença."


Otto Lara Rezende

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